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Era uma vez uma bruxa que habitava em mim.Em mim habitava uma bruxa.

  • Magnólia Benone
  • 19 de ago. de 2022
  • 6 min de leitura


Foi tudo muito rápido. Ela saltou de dentro de um gibi infantil.


Astuta, inteligente e plena de poderes mágicos, me encantou e passou a ser uma parte de mim. Tudo o que eu queria era ser como ela.


Uma bruxa.






Na minha criatividade de criança, ela sempre existiu e, eu amei quando a vi materializada naquelas páginas coloridas e repletas de letrinhas. Fiquei fascinada.


Eu era muita tímida. A imaginação era a minha melhor amiga.


Cada diálogo me fascinava. Eu conseguia ler e entender nas entrelinhas, mesmo sem saber o que de fato significava. Me encantei.


Então tudo o que eu pensava seria possível. Existia um ser, desejoso de viver, que eu sempre alimentava dentro de mim, na minha solidão, nas minhas brincadeiras solitárias, no meu quarto escuro.


Os meus dedos pequeninos tocando aquelas páginas coloridas em encantavam.


O nome dela é Maga Patalógica.





Parte 2 – Em mim habita uma bruxa


Fui rendida pelas suas porções mágicas.


Ela era o outro lado meu que eu desconhecia, mas estava gostando muito de descobrir. Ela era insana, orgulhosa, cruel, agressiva, arrogante, explosiva tudo o que eu não era. Ela me completava. Sabia se proteger.

Os segredos ocultos nos experimentos que ela fazia, era sua pura invenção e manipulação.





Sempre tinha uma intenção má, mas nunca se realizava, graças as trapalhadas da amiga sincera de nome Madame Mim. Pois é, até a bruxa má tinha uma boa amiga. E eu não tinha.




A Maga Patalógica se mistura em mim.





Eu me misturo nela.


Eu mesma sou a bruxa que habita em mim. Eu sou a bruxa que vejo na Maga Patalógica. Ela é minha versão má. Amo ver a imagem dela espelhada no meu eu e o meu eu representado por ela.


Quão assustadoras eram as histórias sobre bruxas. Mas para mim, o mais tenebroso era não estar vivendo a minha vida.





Parte 3 – A porção bruxa dentro de mim


Eu me sinto parte das suas porções mágicas, da leitura na bola de cristal, na sua capacidade de se reinventar a cada mistura no seu grande caldeirão. Ela não anotava nada. Ninguém poderia saber o que ela estava depositando nas águas escaldantes do seu trabalho diário.





Eu acreditava que eu poderia voar na minha vassoura invisível. Ou me transportar tomando uma porção mágica e saborear os seus efeitos.


Eu entendia, ao ler as aventuras da bruxa Maga, que a vida dela poderia replicar em mim. Eu me sentia muito boazinha. Me sentia boba. Me sentia inadequada em tudo o que eu fazia. Não me enquadrava em nenhuma das brincadeiras dos meus coleguinhas. Eu os achava confusos e barulhentos.





Enquanto eu passava os meus olhos nos diálogos do gibi, eu me inventava, eu imaginava me teletransportando para um mundo em que eu pudesse ser eu.


Um mundo paralelo.


Fechava os olhos e procurava, dentro de mim, as palavras mágicas e hipnotizadoras para me tirar dali onde eu me encontrava.

A Maga queria conquistar o primeiro centavo do quaquamilionárioTio Patinhas. Eu desejava que um dia ao menos, pudesse acordar e sentir felicidade em abrir os olhos. Sentir vontade de participar das atividades do dia, enfrentar uma sala de aula onde eu não conseguia entender nada do que os professores explicavam.





Parte 4 – Praticando bruxaria


Eu ensaiava, nos meus pensamentos e imaginações infindáveis, que eu conseguia evocar e transmutar o ambiente em que eu estava.


Gostaria de ter a habilidade de me transformar em uma águia e sair voando procurando o meu ninho.






A bruxa que também habitava em mim, não tinha muito espaço, ela não sabia sair do meu imaginário e entrar na minha realidade. Essa porção mágica ela não tinha. E a cada dia em que eu despertava pela manhã eu queria desaparecer. Desejava que, em um passe de mágica, pudesse viajar para um mundo tão sonhado, tão desejado.


O meu mundo real.


Eu queria ser egoísta e lutar pelo o meu espaço. Mas eu não sabia como, somente na minha imaginação a bruxa tinha vez.

Eu fazia diversas mágicas mentais. Fazia o meu cachorro flutuar. Transformava os seres nanicos que corriam pelo meu quarto à noite em gatos. Parava de ficar presa no teto do meu quarto, de onde eu via o meu corpo preso na cama, durante noites intermináveis. Parava de sair do corpo enquanto dormia. Voltava do universo escuro e perdido, onde eu me encontrava, quando pensava na morte. Queria parar de ter sonhos tenebrosos, verdadeiros pesadelos. Medos noturnos, medo de estar com pessoas, vergonha de existir. Medo de acordar e medo de dormir.


Eu fazia a minha própria porção mágica e de cabeça, sem anotar, para que ninguém descobrisse como eu fiz ou o que eu fiz.

Parte 5 – Adeus à criança assustada


Dentro dessa crença infantil, existia uma criança assustada. Mas que, apesar das bruxas nos contos e histórias que eu ouvia serem más, eu tinha uma bruxa de estimação, e ela me defendia. Na minha imaginação eu bebia essas porções e ficava forte.






Na minha a adolescência a bruxa estava presa no castelo, existente na minha mente, por causa do perigo que ela representava. Ninguém queria conhecer o meu lado obscuro. E nem o meu lado bom. Eu não sabia mais onde encontrá-la.


Eis que um dia a coragem brotou. A bruxa se revelou mais uma vez para mim, mas não nas páginas de um gibi infantil.


Agora eu me sentia a própria Maga Patalógia, leia-se Maga Magnólia.


As pessoas me chamam de Meg, Magali, Margarida ou Maga. Quando elas me chamam de Maga eu ganho uma áurea azul pois sinto a bruxa rir dentro de mim.


Ser a Maga da Maga e ser a Maga da Magnólia é muito divertido e encorajador.









Parte 6 - A bruxa que ainda habita em mim.


Algo novo crescia dentro de mim. Liberei minhas emoções e deixei partir a prisão emocional que me fazia sentir-me um nada.


De repente, abro os meus olhos, e estou voando direto para o meu primeiro apartamento solo.


Enquanto eu me debatia na fase jovem, vivendo a vida universitária, a porção adulta efervesceu e ganhei coragem, apesar dos medos internos que ainda gritavam alto.






Eu flutuava, eu voava, eu me transportava, eu imaginava, eu experimentava, eu amadurecia. Cresci e voei da minha terra materna para terras distantes.





Trouxe na bagagem várias bruxarias que começaram a surtir efeito.


Não era mais uma porção feita em um caldeirão em um castelo qualquer. Agora era a minha vida sendo transformada e modificada pelas minhas vontades, pelo meu querer, pelos meus desejos e ânsia de existir e de viver.


O bom e o ruim. O bem e o mal precisam existir para que o outro se espelhe. Se tudo é mau ou se tudo é bom, nada acrescenta. O diferente é que faz o igual ser igual.





Parte 6.1 – A bruxa que habita em mim, me dá colo






O calor das suas misturas no caldeirão da vida, me conforta e me aquece.


Me sinto protegida. Me sinto participando de algo que transmuta.


Me sinto sendo agente da minha vida. Sendo algo que se toca e que se desmancha dependendo do momento.


A bruxa que habita em mim está estritamente ligada à natureza, à natureza bela e genuína.




A bruxa que habita em mim, saúda a bruxa que habita em ti.







Parte 7 - A bruxa que habita dentro de mim usa a porção mais poderosa.


De repente um som bem ruidoso. Um calor sem precedentes.




Uma luz intensa e ofuscante. Tudo gira tão rápido que se desintegra. Não vejo nada. Não há nada. Tudo cai em um silêncio profundo. Calmaria.


Com a porção capaz de transmutar, eu usei tudo o que eu aprendi com a bruxa, e me teletransportei para um mundo de paz e harmonia, onde o medo já não há.


Renascimento de uma antiguidade reluzente e extremamente atraente e bela.






Parte 8 – Agora eu sou a Magnólia




Amadureci.


Percebi quais eram os meus medos, as minhas tristezas, o meu desconforto em estar nessa vida.


Fechei os olhos e adormeci me sentindo a própria bruxa.


Dentro de mim surgiu a verdadeira magnólia, aquela que brota de uma frondosa árvore e que tem raízes profundas em uma terra tão generosa.


Transportei-me para outro mundo, não mais infantil e solitário e nem jovem indeciso, mas agora sou uma mulher feita e refeita pronta para viver e me refazer sempre que precisar. Ter medo na coragem, simplesmente existir para o que vir.


Se é para vir que venha.




Em mim, ainda habita uma bruxa com histórias sem fim.



 
 
 

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